segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ditaduras militares na América Latina




A América Latina e a repressão militar


Estima-se que 500 mil pessoas foram vítimas da ditadura no Brasil e somente 10% delas receberam indenização

“Todos os regimes militares foram marcados pela coerção da liberdade democrática, a extinção dos partidos políticos, a restrição dos poderes Legislativo e Judiciário e o fechamento de sindicatos e de organizações estudantis”


Por Cinthia Meibach


A América Latina foi vítima da ditadura desde seu descobrimento. Quando Cristóvão Colombo pisou na ilha caribenha de Bahamas, em 1492, deu-se início a opressão que dizimou as populações indígenas e instituiu o método de exploração da região.
Ao decorrer dos anos, insurreições populares foram encabeçadas por revolucionários que se tornaram exemplos de luta pelo fim das desigualdades sociais. Podemos citar ícones como Simon Bolívar na Venezuela, Augusto César Sandino na Nicarágua e Emiliano Zapata no México. Porém, foi com a revolução cubana, em 1959, liderada por Fidel Castro, que desencadeou o período de repressões mais intensas por todo o continente latino-americano.
As proliferações dos ideais socialistas preocuparam a ampliação comercial dos Estados Unidos que resolveram criar um programa de apoio econômico e estratégico ao crescimento dos países latino-americanos, chamado de Doutrina à Segurança Nacional, mais conhecido como ditadura.

Honduras, Guatemala, Nicarágua, Venezuela, Haiti, México, EL Salvador, Peru, todos os países da América Latina em que a ditadura militar se instalou os resultados foram semelhantes: violência, mortes e desaparecimentos.

A ditadura não foi branda em nenhum país, porém, a região mais aterrorizada por esse sistema foi a região conhecida como Cone Sul, constituída por Brasil, Uruguai, Argentina e Chile.

Todos os regimes militares foram marcados pela coerção da liberdade democrática, a extinção dos partidos políticos, a restrição dos poderes Legislativo e Judiciário e o fechamento de sindicatos e de organizações estudantis. Houve fortes censuras à imprensa, e qualquer oposição ao governo era proibida. Adversários do regime foram punidos com perseguições, prisões e deportações, além da prática de tortura como método de interrogatório dos suspeitos de subversão.



Marcas da ditadura no Brasil



Entre 1964 e 1985 no Brasil, a ditadura deixou marcas irreparáveis. Em São Paulo os presos eram levados para o DOPS (departamento estadual de ordem política e Social), no centro, onde ficavam em celas de menos de 15 metros quadrados vulneráveis a torturas, interrogatórios e muitas vezes a morte.
Em abril de 1971, a família Akselhud de Seixas foi presa e teve sua história mudada drasticamente. O chefe da família, Joaquim Alencar Seixas, foi acusado de participar do assassinato de um empresário dinamarquês que teria ligações com o governo militar e por isso teve sua esposa e três filhos levados presos pelos militares.
Ieda, hoje com 62 anos, era estudante e a época com 22 anos conheceu a cela do DOPS, local que foi torturada e violentada. ”Toda minha família foi presa, só não prenderam meu irmão de 10 anos, que teve que ficar com minha tia. Eu podia ouvir o barulho deles colocando a metralhadora na cabeça da minha irmã. Eu me lembro que um batia tanto na minha cara e eu não entendia o motivo”, relembra Ieda.
Apesar de todas as marcas deixadas no corpo da família Akselhud de Seixas, para Ieda a dor maior foi ter visto seu pai morrer vítima das pauladas recebidas na cabeça durante as torturas. “Eles mataram meu pai e ainda o declaram culpado por um crime que ele não cometeu. Eles tomaram tudo da gente. As alianças, jóias, os livros, certidão de nascimento, tudo. Em nome do que, da segurança nacional? A única coisa que esses desgraçados não tiraram de mim foi a dignidade e a alegria, embora eu chore quando falo desse assunto e vou chorar sempre”, desabafa.
Estima-se que 500 mil pessoas foram vítimas da ditadura no Brasil, porém de acordo com José Wilson da Silva, 76, presidente da Associação Pró-Anistia poucos foram indenizados em relação às ações da ditadura. "Diante do grande número de vítimas, somente pediram reparação 50 ou 60 mil, o que dá 10%. É um número relativamente pequeno."
Embora o número de afetados pela ditadura tenha sido grande, muitas pessoas passaram por esse período em uma realidade paralela. Os métodos utilizados pelo governo para dispersar a maioria da população ia da proibição de divulgação de informações a respeito do assunto a exibição dos festivais da Jovem Guarda pela televisão até a empolgação com a copa do mundo de futebol.
O aposentado Domingos Soares Correa, 58 anos, diz ter sido uma dessas pessoas alienadas a época da ditadura: “Até nos estádios de futebol as músicas que tocavam antes do jogo eram aquelas que promoviam o governo e suas políticas de crescimento. Naquela época só tinha acesso aos acontecimentos os estudantes universitários que participavam dos movimentos estudantis. Existia muito medo, não podia comentar nada sobre política no ônibus, na empresa, no cinema, em lugar nenhum, porque sabíamos que existiam espiões do governo por toda parte e que qualquer suspeita de comunismo, seriamos presos”. Em uma noite voltando do colégio foi abordado por militares que o levaram para a delegacia porque ele estava sem o documento de identificação. “Passei por um interrogatório e depois fui liberado, mas ao sair pude ouvir alguns militares lamentando terem perdido uma boa vítima para torturarem”, relembra Corrêa. Ele diz que só se politizou sobre o assunto quando foi trabalhar como vendedor em uma banca de jornal e começou a ler algumas notícias que conseguiam escapar da censura.

No final dos anos 70 o regime ditatorial começou a se enfraquecer. Os Estados Unidos, que até então eram um de seus principais apoiadores, passaram a criticar os abusos repressivos cometidos por essa política. Protestos populares, lutas armadas organizadas por guerrilhas e movimentos estudantis contribuíram para que a ditadura militar chegasse ao fim em toda a América Latina, tendo seu ponto final em 1989, no Paraguai com a prisão do ditador Stroessner.

No entanto, esse passado não está somente registrado na história, mas ainda se faz presente na memória de sobreviventes, familiares de vítimas e revolucionários que encontraram nas marcas deixadas por esse período força para lutar pela manutenção da democracia.

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